Nota prévia

INQUIETAÇÃO INTELECTUAL

            Alípio Canaverde oferece-nos Abitureiras, a terra e o canto, um livro que viaja pela memória por caminhos da etnografia e da antropologia, articulando de forma muito clara costumes, tradições, práticas da cultura popular na sua articulação com o canto e a música.

            É um texto bem escrito, despretensioso, simples mas revela uma forte solidez cultural do autor. E um grande amor à sua terra e às suas gentes. Muito daquilo que é dado a ler há muito que desapareceu dos ritos que hoje organizam os nossos quotidianos e a recuperação histórica que deles se fazem tem, na sua finalidade última, uma confrontação com as nossas próprias posições perante o presente. Isto é, a memória construída décadas, séculos, é o cimento congregador, e mobilizador, para a nossa identificação enquanto comunidade. Não é possível saber os caminhos do presente se não compreendermos o passado.

            Esta inquietação intelectual que atravessa Abitureiras, a terra e o canto, é o traço mais significativo do trabalho de Alípio Canaverde. Ao sondar os caminhos estéticos dessa memória, elegendo os poemas e a música como objectos de interpretação percebemos melhor o seu entusiasmo, a sua dedicação, o seu abraço fraterno à recuperação deste património através da comunidade de músicos e bailarinos que congrega nas Abitureiras. E sabendo-se de como a contemporaneidade tem uma quase absoluta necessidade de dissolver memórias, tornar o tempo rápido e fugidio, roubando tempo ao pensar e à reflexão, este livro é o acto de uma resistência que os homens sensíveis, os homens cultos, os sábios vindos de todos os lados não pode deixar de exercer.

            É um prazer ler este trabalho. Mas um prazer ainda maior acompanhar o labuta de Alípio Canavarro pela reconquista da memória esquecida. São livros como este, são homens como este que se tornam o exemplo de que vale a pena resistir. Em nome da nossa identidade. Em nome do nosso futuro.

Francisco Moita Flores